'saber o que quer, ir à luta e todo mundo ser igual'

terça-feira, 31 de agosto de 2010

os 'meus' olhos claros como o dia


Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dono dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a a enganar nuca me via
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha.
Chico Buarque de Hollanda

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Jean-Paul Sartre, in 'O Ser e o Nada'

Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (...) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Quando Está Frio no Tempo do Frio


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

sábado, 31 de julho de 2010

"L'Oratório D'Aurélia" - um trecho do espetáculo estrelado pela neta do chaplin. fantástico

"quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos"


“Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.”
manoel de barros

O menino passarou. Não, não quer dizer que ele se tornou um pássaro. Muito menos que ele se parece com um pássaro ou tem atitudes de pássaro. Não se trata de metáfora ou qualquer outro tipo de comparação.
O menino contraiu um devir-pássaro. É como se entre ele e o pássaro houvesse uma harmonia, uma linguagem comum, um sentimento compartilhado. É como se o pássaro se sentisse tão à vontade e fizesse um ninho em sua cabeça. É como se ele se sentisse tão próximo e fizesse o pássaro dormir em suas mãos. Mas isto não quer dizer que o devir dependa do contato, de uma convivência conjunta. Contrair o devir-pássaro é contrair a potência do pássaro.
Mas para isso, é preciso se despojar de uma realidade demasiadamente humana. Seria o mesmo que falar uma linguagem sem gramática ou pensar o funcionamento do corpo sem os órgãos. Isto é possível?
Há quem aposte que sim!

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